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"You could call it a crooked perspective, like us — we are crooked." — David Hockney

 

A exposição Panoramas foi idealizada pelos pintores Beto Fame (1988) e Vinícius Carvas (1988), ambos da Zona Norte do Rio de Janeiro. Projetada para ocupar uma sala expositiva do Espaço Cultural Correios em Niterói, a colaboração poética dos artistas é desdobrada em diversas mídias, como a fotografia, a pintura e a colagem. Mobiliza-se, assim, toda uma expografia que foge da organização linear do cubo branco, monumentalmente materializada no mural de aproximadamente 9 metros e composto por 17 telas. A experimentação da paisagem urbana está presente em todas as obras de Panoramas, embora a representação desta experiência seja transmitida por meio de uma multiplicidade de modos de ver.

 

Beto e Carvas são amigos de infância e frequentaram o mesmo colégio. Uma vez, a professora pediu para cada um desenhar o seu ponto de vista do carnaval: Carvas, no turno da tarde, fez o retrato de um mestre-sala e de uma porta-bandeira, enquanto Beto, no turno da manhã, desenhou a vista aérea de foliões figurados como pontinhos. Lembrando dessa história em março de 2023, diante do convite para elaborar esta exposição, Carvas tomava consciência de que a representação em imagem do que é visto, a sua imaginação, por assim dizer, varia conforme a perspectiva do observador. Em Panoramas, a parceria profissional e a convivência íntima são alinhadas nas telas produzidas, nas quais reconhecemos a dinâmica entre os enquadramentos, zoom-in e zoom-out, formados pelo jogo de repetição a quatro mãos dessa história de infância. Carvas sobrepõe diversos pedaços cromáticos e atua como um observador posicionado próximo daquilo que retrata, enquanto Beto tem uma percepção arquitetônica que mescla habitações modernistas com espaços vazios, padrões geométricos e vegetações apinhadas.

 

A pintura modernista de Manet é um ponto de culminância comum às rupturas, porque situa historicamente o momento em que a representação dos eventos e das coisas que compõem a realidade não está necessariamente na elaboração de pinturas naturalistas. O interesse nas impressões captadas pelo olho, durante a observação de uma paisagem, foi impulsionado pelo advento da fotografia e pela modernização das capitais europeias. A fotografia se torna o recurso para criar imagens mais “fidedignas”, enquanto os artistas liberados do aprendizado acadêmico, do ateliê fechado e da projeção da câmara escura – começam a questionar as particularidades da pintura como meio. Baudelaire, poeta interessado nas novidades da modernidade, privilegia os gestos do trapeiro e do flâneur. Ao caminhar pela cidade com passos intermitentes, ambos estão atentos ao entorno, para converter os restos e os fragmentos fugazes em matéria para a expressão criativa. Esse andar inventivo quebra a lógica do progresso e do cotidiano burguês resumido na formação das multidões. Segundo Baudelaire, ambos expressam essa curiosidade presente também na criança, aquela que “vê novidade em tudo, que está sempre embriagada”, sendo o pintor exemplar um “homem-criança”, “cujo domínio é a multidão, como o ar é aquele do pássaro e a água do peixe” (O pintor da vida moderna).

Do século XIX para o século XXI, podemos afirmar que muitas destas questões continuam no centro do debate da pintura contemporânea como ferramenta para representar e intervir no real e no imaginário. As mudanças impostas pela tecnologia e pelo crescimento urbano produzem um novo tipo de observador, sendo o artista aquele que consegue tornar visíveis os detalhes que sinalizam – escapando, resistindo ou exacerbando – a complexa estrutura espaço-temporal elaborada para disciplinar os nossos corpos. Acredito que Beto e Carvas, caminhantes dedicados a recolher os instantâneos pictóricos da cidade em intensa atividade, como um ecossistema dinâmico, atualizam o debate sobre a percepção do observador e a transformação histórica da visão. O corpo citadino bombardeado por informações linguísticas e visuais, presentes nas propagandas e nas placas de sinalização, e por deslocamentos geográficos e virtuais, como ocorre nas viagens de ônibus ou nas trocas de mensagem online, é impulsionado pelas possibilidades colocadas pela acelerada vivência na metrópole.

O ato do olhar é subjetivo, portanto, a percepção visual é mediada pelo estímulo e pelo contexto. As fotografias e as colagens expostas são recortes para localizarmos o que desperta a atenção dos artistas, porque indicam como se dá o processo de composição do que posteriormente será uma pintura. Carvas relata o seu cotidiano, tal como podemos analisar na tela “Ponto Cego” (2024), em que reconhecemos as suas principais ferramentas expressivas, como as texturas que separam o espaço interno do externo e as orientações gráficas e tipográficas. O olho com um risco é uma sinalização de trânsito, presente na parte de fora dos ônibus, para sermos alertados dos pontos cegos do motorista. O sinal que indica o perigo é o mesmo que nos protege, desvelando a complexidade social de se sentir bem-vindo a transitar em alguns lugares ao mesmo tempo em que se é impedido de estar em outros. Na obra de Beto, existe a vontade de organização paisagística, que pode ser interpretada como parte de um esquema de ordenação mental. A sobreposição de camadas como um modo de fazer pintura dificulta o traço perfeito e potencializa a busca espontânea por uma forma de expressão. Ao nos concentrarmos nas fotografias escolhidas pelo artista, vamos perceber que as imagens foram capturadas no Rio de Janeiro e em Londres – onde a série foi pintada. Beto reside atualmente em Londres e percebe a série disposta em Panoramas como uma etapa de transição na qual o corpo assimila o distante e o familiar simultaneamente.

 

Os panoramas de Beto e de Carvas são paisagens marcadas pela interferência humana, mesmo que sejam cenários sem a presença da figura humana. O andar torto do flâneur é revisitado em contexto contemporâneo, pois não se trata apenas da captação visual das impressões de uma paisagem, mas do desejo de fazer parte dela. A pluralidade de pontos de vista apresentados na exposição é um convite para o observador fazer uma imersão, na qual o prazer de andar a pé pela cidade irrompe como um direito coletivo.

Paula Amparo professora, historiadora da arte e ensaísta

Centro Cultural Correios - Niteroi, BR - 2024

 © 2025 by Beto Fame - Artworks portfolio. 

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